segunda-feira, 3 de abril de 2017


UM DIA NA VIDA


WANDA Sá. Vagamente. São Paulo: RGE, 1964.




O dia 1º de abril de 1964 iria entrar para a história do nosso país. Naquele dia da mentira, os militares, apoiados por enorme parcela da sociedade civil e da Igreja Católica, resolveram que iriam depor o presidente da República, João Goulart. Fico (2015) chama de golpe Civil-Militar

Não que Goulart fosse algum estadista excepcional. Gaspari (2002) o chama de primitivo e despreparado, além de dono de uma biografia raquítica.

Na noite anterior, em Juiz de Fora, o general Mourão Filho estava decidido a levar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro para derrubar o governo. Tinha pressa, pois estava a um passo da compulsória. Com poucos meses de serviço na ativa, em breve iria se aposentar.

Aproveitando o gancho, no Rio de Janeiro, o general Arthur da Costa e Silva liderava outro grupo de militares revoltosos. Em um mundo sem WhatsApp, as notícias sobre os grupos militares que se levantavam contra o governo vinham incompletas e incertas.

Do Rio de Janeiro partira  o Grupo de Obuses, liderado pelo capitão Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi enviado para combater o grupo do general Mourão Filho. Uma péssima escolha das forças legalistas, pois o capitão Ustra era partidário da ideia de depor João Goulart, e ao invés de combater, aliou-se a Mourão Filho.

O general Amaury Kruel, comandante do 2. Exército, com sede em São Paulo, em um telefonema, pede ao presidente Goulart que rompa com a esquerda, como única saída para o fim da crise que se instalara. Goulart não concorda com os termos e Kruel acaba por engrossar as fileiras contrárias ao governo.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Wanda Sá se preparava para mais uma sessão de gravação do seu LP de estreia. Roberto Menescal, produtor do disco, nem sonhava que a História estava sendo escrita naquele momento.

De acordo com Ávila (2014), Menescal conta que no dia marcado para a gravação pegou  Wanda em casa, o técnico de gravação e o Sérgio Barroso, o contrabaixista. “Fomos pro estúdio, no centro da cidade. As ruas estavam vazias. Conseguimos vaga em frente ao estúdio.” O técnico tinha a chave, possibilitando que entrassem no prédio. Não havia ninguém lá. Nem a orquestra tinha ido. E enquanto esperavam, ficaram passando o som, com baixo, guitarra e voz. O resultado pode ser observado na faixa Inútil paisagem, onde Wanda Sá gravou a voz acompanhada apenas da guitarra de Menescal e do contrabaixo de Barroso.

Naquele dia ninguém apareceu. O rio de Janeiro havia sido invadido pelos tanques do Exército e Goulart estava de malas prontas para o exílio.





ÁVILA, Carlos. Inútil paisagem. Domtotal.com. 28 mar. 2014. Disponível em: https://domtotal.com/noticia/734300/2014/03/1964-inatil-paisagem/

FICO, Carlos. O golpe de 64: momentos decisivos. Rio de Janeiro: FGV, 2015.

GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

JOBIM, A.C; OLIVEIRA, A. Inútil paisagem. Intérprete: Wanda Sá. In:  WANDA Sá. Vagamente. São Paulo; RGE, 1964. 1 disco sonoro. Lado B, faixa 4.



Ouça a faixa Inútil paisagem em: https://youtu.be/nyaTxEauI3w



Ouça o disco completo Vagamente em: https://youtu.be/BsC50SYZRc8

Nenhum comentário:

Postar um comentário