UM DIA NA VIDA
WANDA Sá. Vagamente. São Paulo: RGE, 1964.
O dia
1º de abril de 1964 iria entrar para a história do nosso país. Naquele dia da
mentira, os militares, apoiados por enorme parcela da sociedade civil e da
Igreja Católica, resolveram que iriam depor o presidente da República, João
Goulart. Fico (2015) chama de golpe Civil-Militar
Não
que Goulart fosse algum estadista excepcional. Gaspari (2002) o chama de
primitivo e despreparado, além de dono de uma biografia raquítica.
Na
noite anterior, em Juiz de Fora, o general Mourão Filho estava decidido a levar
suas tropas em direção ao Rio de Janeiro para derrubar o governo. Tinha pressa,
pois estava a um passo da compulsória. Com poucos meses de serviço na ativa, em
breve iria se aposentar.
Aproveitando
o gancho, no Rio de Janeiro, o general Arthur da Costa e Silva liderava outro
grupo de militares revoltosos. Em um mundo sem WhatsApp, as notícias sobre os
grupos militares que se levantavam contra o governo vinham incompletas e
incertas.
Do Rio
de Janeiro partira o Grupo de Obuses,
liderado pelo capitão Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi enviado para
combater o grupo do general Mourão Filho. Uma péssima escolha das forças
legalistas, pois o capitão Ustra era partidário da ideia de depor João Goulart,
e ao invés de combater, aliou-se a Mourão Filho.
O
general Amaury Kruel, comandante do 2. Exército, com sede em São Paulo, em um
telefonema, pede ao presidente Goulart que rompa com a esquerda, como única
saída para o fim da crise que se instalara. Goulart não concorda com os termos
e Kruel acaba por engrossar as fileiras contrárias ao governo.
Enquanto
isso, no Rio de Janeiro, Wanda Sá se preparava para mais uma sessão de gravação
do seu LP de estreia. Roberto Menescal, produtor do disco, nem sonhava que a
História estava sendo escrita naquele momento.
De acordo com Ávila (2014), Menescal conta que no dia marcado para
a gravação pegou Wanda em casa, o
técnico de gravação e o Sérgio Barroso, o contrabaixista. “Fomos pro estúdio,
no centro da cidade. As ruas estavam vazias. Conseguimos vaga em frente ao
estúdio.” O técnico tinha a chave, possibilitando que entrassem no prédio. Não havia
ninguém lá. Nem a orquestra tinha ido. E enquanto esperavam, ficaram passando o
som, com baixo, guitarra e voz. O resultado pode ser observado na faixa Inútil paisagem, onde Wanda Sá gravou a
voz acompanhada apenas da guitarra de Menescal e do contrabaixo de Barroso.
Naquele dia ninguém apareceu. O rio de Janeiro havia sido invadido
pelos tanques do Exército e Goulart estava de malas prontas para o exílio.
ÁVILA, Carlos. Inútil
paisagem. Domtotal.com. 28 mar.
2014. Disponível em: https://domtotal.com/noticia/734300/2014/03/1964-inatil-paisagem/
FICO, Carlos. O golpe de 64: momentos decisivos. Rio
de Janeiro: FGV, 2015.
GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002.
JOBIM,
A.C; OLIVEIRA, A. Inútil paisagem. Intérprete: Wanda Sá. In: WANDA Sá. Vagamente.
São Paulo; RGE, 1964. 1 disco sonoro. Lado B, faixa 4.
Ouça
a faixa Inútil paisagem em: https://youtu.be/nyaTxEauI3w
Ouça
o disco completo Vagamente em: https://youtu.be/BsC50SYZRc8

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