sábado, 22 de abril de 2017



LONDRES, 1971.

CAETANO Veloso. Caetano Veloso. [S.l.]: Phillips, 1971.

 

Em dezembro de 1968, o governo militar lança o Ato Institucional n. 5, dando poderes excepcionais ao presidente da República, e limitando as liberdades individuais.[1] No mesmo mês Caetano Veloso e Gilberto Gil eram presos pelos militares, e posteriormente seguiriam para o exílio, refugiando-se em Londres.[2]

Gilberto Gil logo se enturmou com os músicos locais e com a comunidade jamaicana residente na capital inglesa. Caetano Veloso ficava cada vez mais introspectivo e soturno.

Não fosse pela casa sempre cheia de amigos, brasileiros ou não, que iam ali conversar e colocar Caetano em dia com o que se passava no Brasil, o nosso baiano poderia ter tido um fim diferente.

Tudo mudou quando Caetano foi procurado por um representante da indústria fonográfica em Londres, em sua casa na rua Redesdale. Tratava-se de Ralph Mace, que segundo Caetano, pediu que tocassem algo. Para surpresa de todos, Mace adorou o que ouviu. Pediu que Caetano compusesse algumas canções em inglês e demonstrou interesse em gravar tanto Caetano quanto Gilberto Gil.[3]

Dessas reuniões surgiram as canções em inglês, lançadas em 1971, em seu disco simplesmente intitulado Caetano Veloso. Estão presentes nas faixas, toda a tristeza e melancolia que Caetano encontrou em seu exílio, além de flashes da situação atual no Brasil e sua desesperança.

Pode-se observar, por exemplo, a narrativa de sua prisão em  In the hot sun of a Christmas day : They are chasing me / [...] but they won’t find me / [...] I walk the streets / Everybody’s blind […] (Eles estão me perseguindo / Mas não vão me encontrar / Caminho pelas ruas / Estão todos cegos). Ou sobre o seu exílio em  A little more blue : One day I had to leave my country […]  / That day I couldn't even cry (Um dia tive que abandonar meu país […] / Naquele dia não consegui sequer chorar).

Caetano Veloso (1971) é o retrato amargo dos sentimentos exasperantes que o exílio deixou em seu criador. Em 1972, Caetano lançaria Transa, e retornaria para o seu país e sua gente.



Ouça In the hot sun of a Christmas day https://youtu.be/1d86U3184IA 





[1] SKIDMORE, T. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
[2] MOTTA, Nelson. Noites tropicais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
[3] VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

quinta-feira, 13 de abril de 2017


QUE @#*% DE PAÍS É ESSE??


LEGIÃO Urbana. Que país é este. [S.l.]: EMI-Odeon, 1987.




Em 1987, com a obrigação de lançarem um novo disco e sem repertório para tal missão, Renato Russo e seus companheiros da Legião Urbana tiveram a brilhante ideia de trazer à luz as antigas músicas do seu grupo punk Aborto Elétrico.

O  resultado surgiu em 1978 – 1987 : Que país é este, o terceiro e mais agressivo disco lançado pela banda. Entre as músicas presentes no disco, encontrava-se Faroeste caboclo, sucesso imediato; Conexão amazônica e a faixa-título Que país é este.

Apesar de ter sido escrita ainda no final da década de 1970, a banda nunca havia lançado Que país é este porque, segundo o encarte que acompanhava o LP, “sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país, tornando-se [...] totalmente obsoleta”. Nada mudou em quase quarenta anos.

À época da criação da música, em 1978, o Brasil era comandado por Ernesto Geisel, quarto general-presidente do regime militar. No final daquele ano, Geisel  iria revogar o AI-5, que já vinha há dez anos limitando liberdades individuais e coletivas em prol do regime. Outra medida de Geisel, naquele ano, foi acabar com a censura prévia, onde revisores do governo aprovavam ou não as matérias que seriam publicadas pelos jornais e revistas.

Hoje, não convivemos mais com censura prévia ou Atos Institucionais. Entretanto, enfrentamos diariamente os  noticiários sobre corrupção envolvendo políticos de esquerda e direita, em um infinito lamaçal da República de ratos.

Tudo isso torna 1978 – 1987: Que país é este um disco atualíssimo, mesmo tendo sido lançado há trinta anos.




segunda-feira, 3 de abril de 2017


UM DIA NA VIDA


WANDA Sá. Vagamente. São Paulo: RGE, 1964.




O dia 1º de abril de 1964 iria entrar para a história do nosso país. Naquele dia da mentira, os militares, apoiados por enorme parcela da sociedade civil e da Igreja Católica, resolveram que iriam depor o presidente da República, João Goulart. Fico (2015) chama de golpe Civil-Militar

Não que Goulart fosse algum estadista excepcional. Gaspari (2002) o chama de primitivo e despreparado, além de dono de uma biografia raquítica.

Na noite anterior, em Juiz de Fora, o general Mourão Filho estava decidido a levar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro para derrubar o governo. Tinha pressa, pois estava a um passo da compulsória. Com poucos meses de serviço na ativa, em breve iria se aposentar.

Aproveitando o gancho, no Rio de Janeiro, o general Arthur da Costa e Silva liderava outro grupo de militares revoltosos. Em um mundo sem WhatsApp, as notícias sobre os grupos militares que se levantavam contra o governo vinham incompletas e incertas.

Do Rio de Janeiro partira  o Grupo de Obuses, liderado pelo capitão Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi enviado para combater o grupo do general Mourão Filho. Uma péssima escolha das forças legalistas, pois o capitão Ustra era partidário da ideia de depor João Goulart, e ao invés de combater, aliou-se a Mourão Filho.

O general Amaury Kruel, comandante do 2. Exército, com sede em São Paulo, em um telefonema, pede ao presidente Goulart que rompa com a esquerda, como única saída para o fim da crise que se instalara. Goulart não concorda com os termos e Kruel acaba por engrossar as fileiras contrárias ao governo.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Wanda Sá se preparava para mais uma sessão de gravação do seu LP de estreia. Roberto Menescal, produtor do disco, nem sonhava que a História estava sendo escrita naquele momento.

De acordo com Ávila (2014), Menescal conta que no dia marcado para a gravação pegou  Wanda em casa, o técnico de gravação e o Sérgio Barroso, o contrabaixista. “Fomos pro estúdio, no centro da cidade. As ruas estavam vazias. Conseguimos vaga em frente ao estúdio.” O técnico tinha a chave, possibilitando que entrassem no prédio. Não havia ninguém lá. Nem a orquestra tinha ido. E enquanto esperavam, ficaram passando o som, com baixo, guitarra e voz. O resultado pode ser observado na faixa Inútil paisagem, onde Wanda Sá gravou a voz acompanhada apenas da guitarra de Menescal e do contrabaixo de Barroso.

Naquele dia ninguém apareceu. O rio de Janeiro havia sido invadido pelos tanques do Exército e Goulart estava de malas prontas para o exílio.





ÁVILA, Carlos. Inútil paisagem. Domtotal.com. 28 mar. 2014. Disponível em: https://domtotal.com/noticia/734300/2014/03/1964-inatil-paisagem/

FICO, Carlos. O golpe de 64: momentos decisivos. Rio de Janeiro: FGV, 2015.

GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

JOBIM, A.C; OLIVEIRA, A. Inútil paisagem. Intérprete: Wanda Sá. In:  WANDA Sá. Vagamente. São Paulo; RGE, 1964. 1 disco sonoro. Lado B, faixa 4.



Ouça a faixa Inútil paisagem em: https://youtu.be/nyaTxEauI3w



Ouça o disco completo Vagamente em: https://youtu.be/BsC50SYZRc8