sexta-feira, 19 de janeiro de 2018


O ROCK E O CENÁRIO MUSICAL BRASILEIRO NOS ANOS 1970





















Os anos 1970, para a música, foram de um total marasmo. Os astros e estrelas da música da década de 1960 haviam deixado o país, ou por motivos financeiros – como Tom Jobim e João Gilberto, que ficaram nos Estados Unidos depois do show da Bossa Nova no Carneggie Hall – ou por motivos políticos, após o decreto do AI-5 – como Caetano Veloso e Gilberto Gil que se exilaram na Inglaterra ou Chico Buarque que foi para a Itália.

O rock, que havia dado o sinal da graça em terras brasileiras em fins da década de 1950, com Celly Campelo, foi aclamado como música jovem nos anos 1960, graças ao movimento Jovem Guarda, capitaneado por Roberto Carlos. Entretanto, a partir de 1969, Roberto Carlos deu continuidade à sua carreira, “pendendo de vez para as baladas românticas”.[1]

Com isso, não apenas a MPB se encontrava em um cenário desfavorável, como o próprio rock havia perdido seu espaço. Na década de 1970, o rock seria um estilo maldito, representado apenas por bandas underground como Made in Brazil e Vímana.

Somente Rita Lee e Raul Seixas conseguiram furar o bloqueio imposto pelo regime militar e pela mídia da época contra o rock. Ambos colocaram a boca no trombone, reclamando da situação desoladora em que se encontrava a MPB da época.

Raul Seixas gravou, em 1976, a música Eu também vou reclamar, que satirizava a música de protesto, em evidência desde a época dos festivais.

Rita Lee foi mais longe: escrachou com os ídolos musicais, fazendo uma paródia com um grande sucesso da Jovem Guarda (Festa de arromba, de Erasmo Carlos), em parceria com Paulo Coelho. Tratava-se de Arrombou a festa, onde a deusa do rock brasileiro achincalhava com Roberto Carlos, Caetano Veloso, Benito de Paula e congêneres.

Nessa música, Rita Lee perguntava o que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira. Citava músicas de gosto duvidoso, como O fio da veia, de Luiz Américo; Severina Xique-Xique, de Genival Lacerda, Bilu tetéia e Farofa-fá de Mauro Celso, grandes sucessos radiofônicos de 1975. Afinal, fora Genival Lacerda, alguém lembra desses outros cantores?

Rita Lee conseguiu, magistralmente, registrar em música a falta de originalidade e qualidade que assolava o mercado fonográfico brasileiro na década de 1970.

Rita Lee – Arrombou a festa: https://youtu.be/i9Fg1dreV6E



[1] MEDEIROS, Paulo de Tarso. A aventura da Jovem Guarda. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. 72.

sábado, 10 de junho de 2017



BANQUETE INDIGESTO

 

HANS STADEN. Direção: Luiz Alberto Pereira. Brasil, Portugal: Lapfilme, 1999.



O cinema pode ser de extrema importância para os estudos históricos. A História do Brasil, particularmente, é rica em obras fílmicas que, através de seus recortes, nos ajudam a compreender determinados fatos ocorridos em nosso país.

Uma dessas obras é o filme Hans Staden, realizado em 1999, dirigido por Luiz Alberto Pereira, uma produção em parceria com Portugal, baseada no livro Duas viagens ao Brasil.

O livro é o relato do mercenário alemão Hans Staden, que foi capturado por índios tupinambás, notórios antropófagos. Tal história já havia sido contada no filme Como era gostoso o meu francês, de 1971, de Nelson Pereira dos Santos, que teve sérios problemas com a censura militar da época, devido às inúmeras cenas de nudez. O filme só conseguiu ser liberado para maiores de 18 anos.

Hans Staden, o filme, é fiel ao livro em vários aspectos. As línguas faladas na película são o alemão (idioma original do protagonista), o tupi (língua indígena) e o português (colonizador). Além disso, o filme consegue passar o sentimento de insegurança e temor, adotados por Staden, bem como sua devoção e fé, importantes na manutenção da esperança de escapar do trágico fim de ser o prato principal do banquete dos tupinambás.

Um bom filme, baseado em um bom livro sobre o contexto do Brasil colônia.

Filme disponível em https://youtu.be/xBztbsC8WU8

quarta-feira, 24 de maio de 2017


UM PAÍS EM FRANGALHOS

RAUL Seixas. Abre-te sésamo. [S.l.]: CBS, 1980.


 


Na virada da década de 1970 para 1980, o Brasil começava a sentir a grande ressaca do “milagre econômico”. A inflação começava a preocupar e a dívida externa iniciava sua curva ascendente. Era o início do que chegou a ser chamado “década perdida”, um período complexo [...] de convulsões de ordem externa e interna” [1].

No campo econômico, o país se encontrava em séria crise. Em 1983, a inflação anual atingiria o incrível patamar de 200%, o PIB (Produto Interno Bruto) observou um recuo de 5% e a dívida externa chegara a U$S 100 milhões.[2]



A cada mês, os resultados do PIB eram piores. Desde o início do segundo trimestre, os sinais de grave recessão eram evidentes. O governo federal anunciou que não pagaria o 13.º salário dos funcionários públicos em 1981 e 1982. A razão? Falta de dinheiro. Somente nas duas primeiras semanas de agosto, a Fiesp informou que a indústria paulista havia demitido 16 mil trabalhadores.[3]



Toda essa ebulição política e social, pela qual passava o país, foi utilizada como inspiração para a criação de Abre-te sésamo, décimo álbum de estúdio de Raul Seixas.

Estão lá a problemática da dívida externa, em Aluga-se:

A solução pro nosso povo eu vou dar

Negócio bom assim, ninguém nunca viu

Está tudo pronto aqui, é só vir pegar

A solução é alugar o Brasil

Nós não vamos pagar nada [...].



A falta de esperança no Brasil em Anos 80:



Ei, anos 80

charrete que perdeu o condutor

Ei, anos 80

Melancolia e promessas de amor

Pobre país, carregador dessa miséria

Dividido entre Ipanema e a empregada do patrão

Varrendo o lixo pra debaixo do tapete

Que é supostamente persa

Pra alegria do ladrão [...].



Além da sexualmente explícita em Rock das “aranha”: “Vem cá mulher, deixa de manha, minha cobra quer comer sua aranha [...]”.

Abre-te Sésamo, o disco, é um retrato da situação de caos político e social que vivia o Brasil à época. Raul Seixas soube expressar como ninguém, a inquietude, o pessimismo e a revolta. Sentimentos que se fariam presentes na música produzida em toda a década de 1980.
Ouça Aluga-se em Seu vídeo foi enviado. Depois que o processamento for concluído, seu vídeo poderá ser encontrado em https://youtu.be/OUUmFffWDYg 




[1] PRADO, Gustavo dos Santos. A juventude dos anos 80 em ação: música, rock e crítica aos valores modernos. Revista Desenredos, ano III, n. 10, Teresina, Piauí, jul. ago. set. 2011. p. 3.

[2] NAPOLITANO, Marcos. O regime militar brasileiro. São Paulo: Atual, 1998. p. 90.

[3] VILLA, Marco Antônio. Ditadura à brasileira – 1964-1985: A democracia golpeada à esquerda e à direita. São Paulo: LeYa, 2014. p. 197.

quinta-feira, 4 de maio de 2017


PRA FRENTE BRASIL



 



Em 1970, enquanto o país vibra com a seleção brasileira de futebol, que segue em direção à conquista do tricampeonato mundial, prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar.

Nesse cenário, Jofre ( Reginaldo Faria), brasileiro avesso às manifestações políticas, tem o azar de dividir o taxi com um guerrilheiro procurado (Cláudio Marzo). Ao serem perseguidos pela polícia, o guerrilheiro é morto e o pobre Jofre é confundido, sendo levado ao cárcere.

Sua família, preocupada com o seu desaparecimento, inicia uma peregrinação em hospitais e delegacias, sem descobrir o seu paradeiro.

Nesse interim, seu irmão Miguel (Antônio Fagundes), envolve-se com Mariana (Elizabeth Savalla), guerrilheira também procurada.

Jofre, vítima de infindável tortura, acaba por perecer, ao som da torcida. Sua esposa não consegue encontrar as respostas que procura e o Brasil é tricampeão de futebol no México.

O filme retrata o conturbado período do governo de Emílio Garrastazu Médici, caracterizado pelo ufanismo, forte repressão e “milagre econômico”.

Um retrato corajoso do país, realizado em pleno regime militar, Pra frente Brasil é uma fonte de estudo histórico de grande importância, em se tratando dos “anos de chumbo” e da própria ditadura militar.

PRA FRENTE BRASIL. Direção: Roberto Farias. Brasil: Embrafilme, 1982. 105 min.

Assista Pra frente Brasil em https://youtu.be/rzj1_bD3BDI

sábado, 22 de abril de 2017



LONDRES, 1971.

CAETANO Veloso. Caetano Veloso. [S.l.]: Phillips, 1971.

 

Em dezembro de 1968, o governo militar lança o Ato Institucional n. 5, dando poderes excepcionais ao presidente da República, e limitando as liberdades individuais.[1] No mesmo mês Caetano Veloso e Gilberto Gil eram presos pelos militares, e posteriormente seguiriam para o exílio, refugiando-se em Londres.[2]

Gilberto Gil logo se enturmou com os músicos locais e com a comunidade jamaicana residente na capital inglesa. Caetano Veloso ficava cada vez mais introspectivo e soturno.

Não fosse pela casa sempre cheia de amigos, brasileiros ou não, que iam ali conversar e colocar Caetano em dia com o que se passava no Brasil, o nosso baiano poderia ter tido um fim diferente.

Tudo mudou quando Caetano foi procurado por um representante da indústria fonográfica em Londres, em sua casa na rua Redesdale. Tratava-se de Ralph Mace, que segundo Caetano, pediu que tocassem algo. Para surpresa de todos, Mace adorou o que ouviu. Pediu que Caetano compusesse algumas canções em inglês e demonstrou interesse em gravar tanto Caetano quanto Gilberto Gil.[3]

Dessas reuniões surgiram as canções em inglês, lançadas em 1971, em seu disco simplesmente intitulado Caetano Veloso. Estão presentes nas faixas, toda a tristeza e melancolia que Caetano encontrou em seu exílio, além de flashes da situação atual no Brasil e sua desesperança.

Pode-se observar, por exemplo, a narrativa de sua prisão em  In the hot sun of a Christmas day : They are chasing me / [...] but they won’t find me / [...] I walk the streets / Everybody’s blind […] (Eles estão me perseguindo / Mas não vão me encontrar / Caminho pelas ruas / Estão todos cegos). Ou sobre o seu exílio em  A little more blue : One day I had to leave my country […]  / That day I couldn't even cry (Um dia tive que abandonar meu país […] / Naquele dia não consegui sequer chorar).

Caetano Veloso (1971) é o retrato amargo dos sentimentos exasperantes que o exílio deixou em seu criador. Em 1972, Caetano lançaria Transa, e retornaria para o seu país e sua gente.



Ouça In the hot sun of a Christmas day https://youtu.be/1d86U3184IA 





[1] SKIDMORE, T. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
[2] MOTTA, Nelson. Noites tropicais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
[3] VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

quinta-feira, 13 de abril de 2017


QUE @#*% DE PAÍS É ESSE??


LEGIÃO Urbana. Que país é este. [S.l.]: EMI-Odeon, 1987.




Em 1987, com a obrigação de lançarem um novo disco e sem repertório para tal missão, Renato Russo e seus companheiros da Legião Urbana tiveram a brilhante ideia de trazer à luz as antigas músicas do seu grupo punk Aborto Elétrico.

O  resultado surgiu em 1978 – 1987 : Que país é este, o terceiro e mais agressivo disco lançado pela banda. Entre as músicas presentes no disco, encontrava-se Faroeste caboclo, sucesso imediato; Conexão amazônica e a faixa-título Que país é este.

Apesar de ter sido escrita ainda no final da década de 1970, a banda nunca havia lançado Que país é este porque, segundo o encarte que acompanhava o LP, “sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país, tornando-se [...] totalmente obsoleta”. Nada mudou em quase quarenta anos.

À época da criação da música, em 1978, o Brasil era comandado por Ernesto Geisel, quarto general-presidente do regime militar. No final daquele ano, Geisel  iria revogar o AI-5, que já vinha há dez anos limitando liberdades individuais e coletivas em prol do regime. Outra medida de Geisel, naquele ano, foi acabar com a censura prévia, onde revisores do governo aprovavam ou não as matérias que seriam publicadas pelos jornais e revistas.

Hoje, não convivemos mais com censura prévia ou Atos Institucionais. Entretanto, enfrentamos diariamente os  noticiários sobre corrupção envolvendo políticos de esquerda e direita, em um infinito lamaçal da República de ratos.

Tudo isso torna 1978 – 1987: Que país é este um disco atualíssimo, mesmo tendo sido lançado há trinta anos.




segunda-feira, 3 de abril de 2017


UM DIA NA VIDA


WANDA Sá. Vagamente. São Paulo: RGE, 1964.




O dia 1º de abril de 1964 iria entrar para a história do nosso país. Naquele dia da mentira, os militares, apoiados por enorme parcela da sociedade civil e da Igreja Católica, resolveram que iriam depor o presidente da República, João Goulart. Fico (2015) chama de golpe Civil-Militar

Não que Goulart fosse algum estadista excepcional. Gaspari (2002) o chama de primitivo e despreparado, além de dono de uma biografia raquítica.

Na noite anterior, em Juiz de Fora, o general Mourão Filho estava decidido a levar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro para derrubar o governo. Tinha pressa, pois estava a um passo da compulsória. Com poucos meses de serviço na ativa, em breve iria se aposentar.

Aproveitando o gancho, no Rio de Janeiro, o general Arthur da Costa e Silva liderava outro grupo de militares revoltosos. Em um mundo sem WhatsApp, as notícias sobre os grupos militares que se levantavam contra o governo vinham incompletas e incertas.

Do Rio de Janeiro partira  o Grupo de Obuses, liderado pelo capitão Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi enviado para combater o grupo do general Mourão Filho. Uma péssima escolha das forças legalistas, pois o capitão Ustra era partidário da ideia de depor João Goulart, e ao invés de combater, aliou-se a Mourão Filho.

O general Amaury Kruel, comandante do 2. Exército, com sede em São Paulo, em um telefonema, pede ao presidente Goulart que rompa com a esquerda, como única saída para o fim da crise que se instalara. Goulart não concorda com os termos e Kruel acaba por engrossar as fileiras contrárias ao governo.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Wanda Sá se preparava para mais uma sessão de gravação do seu LP de estreia. Roberto Menescal, produtor do disco, nem sonhava que a História estava sendo escrita naquele momento.

De acordo com Ávila (2014), Menescal conta que no dia marcado para a gravação pegou  Wanda em casa, o técnico de gravação e o Sérgio Barroso, o contrabaixista. “Fomos pro estúdio, no centro da cidade. As ruas estavam vazias. Conseguimos vaga em frente ao estúdio.” O técnico tinha a chave, possibilitando que entrassem no prédio. Não havia ninguém lá. Nem a orquestra tinha ido. E enquanto esperavam, ficaram passando o som, com baixo, guitarra e voz. O resultado pode ser observado na faixa Inútil paisagem, onde Wanda Sá gravou a voz acompanhada apenas da guitarra de Menescal e do contrabaixo de Barroso.

Naquele dia ninguém apareceu. O rio de Janeiro havia sido invadido pelos tanques do Exército e Goulart estava de malas prontas para o exílio.





ÁVILA, Carlos. Inútil paisagem. Domtotal.com. 28 mar. 2014. Disponível em: https://domtotal.com/noticia/734300/2014/03/1964-inatil-paisagem/

FICO, Carlos. O golpe de 64: momentos decisivos. Rio de Janeiro: FGV, 2015.

GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

JOBIM, A.C; OLIVEIRA, A. Inútil paisagem. Intérprete: Wanda Sá. In:  WANDA Sá. Vagamente. São Paulo; RGE, 1964. 1 disco sonoro. Lado B, faixa 4.



Ouça a faixa Inútil paisagem em: https://youtu.be/nyaTxEauI3w



Ouça o disco completo Vagamente em: https://youtu.be/BsC50SYZRc8