quinta-feira, 23 de março de 2017


BRAZIL PARA GRINGO VER (E OUVIR).

VÁRIOS. The original sound track from the film Black Orpheus. [S.l.]: Fontana, 1959.


No final da década de 1950, o Brasil passava por um período de modernização, graças ao Plano de Metas do governo Kubitschek, que prometera realizar 50 anos em 5, com grande incentivo a indústria, especialmente a automobilística.
O Rio de Janeiro fervilhava com seu belo cenário e sua intelectualidade nascente.
Vinícius de Moraes havia escrito uma peça chamada Orfeu da Conceição, e convidara Tom Jobim para criar os temas musicais. A peça estreou em setembro de 1956 e foi um enorme sucesso.
Em 1959, o produtor francês Sasha Gordine se interessou em produzir um filme baseado na peça de Tom e Vinícius, com uma pequena ressalva: fazia questão que fossem feitas novas canções para o filme, excluindo-se as que já haviam sido criadas para a peça. Segundo Castro (1990), Tom Jobim não gostou da ideia, mas como Vinícius de Moraes havia concordado, ele achou melhor acatar ao pedido.
Entre as canções compostas para a peça estava Se todos fossem iguais a você, um clássico da parceria Tom-Vinícius. Para o filme Tom Jobim compôs A felicidade, Frevo e O nosso Amor. Luís Bonfá e Antônio Maria criaram Manhã de carnaval e Samba de Orfeu.
O filme, como a peça, foi um sucesso, vencendo a Palma de Ouro de Cannes, e o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1959.
Anos depois, Tom Jobim percebeu porque o francês Gordine exigiu novas composições para o filme. Como as músicas para a peça Orfeu da Conceição já estavam registradas, o produtor requisitou novas faixas e as registrou na Europa, recebendo 50% da renda dos direitos autorais pelo trabalho de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, deixando os compositores a verem navios.
Na contra capa do disco, pode-se ler que “os espectadores de Orfeu Negro, sem saber, foram apresentados ao estilo musical que, anos depois, iria invadir os Estados Unidos, a Europa e todo o Mundo Ocidental”. Nada mais, nada menos que a Bossa Nova.


CASTRO, Ruy. Chega de saudade. São Paulo: Companha das Letras, 1990.


Ouça The original soundtrack from the movie Black Orpheus em  https://youtu.be/FdmYlwOjndo

domingo, 19 de março de 2017


BRASIL, MOSTRA A TUA CARA!

CAZUZA. Ideologia. [S.l.]: Polygram, 1988.

 



Em 1988, já sabendo que era portador do vírus da AIDS, Cazuza lançou o seu mais emblemático disco, intitulado Ideologia. Entre as canções que compunham o LP, encontrava-se Brasil, que entre seus versos recheados de indignação dizia:

Não me convidaram pra essa festa pobre
                                         Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver, toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer
(CAZUZA, Brasil, 1988).

Desde 1500, o Brasil tem essa sina de ser agremiação de corruptos e inaptos. Tom Jobim já havia dito que o Brasil não era para principiantes. Não é ainda. Talvez jamais  seja.

Em 1985, os militares devolveram o país à sociedade civil. O que se viu desde então  foi uma sucessão de políticos mais interessados com seus propósitos pessoais, do que resolver as agruras sociais presentes no país.

Dacanal (2005) classifica os artistas como antenas da raça, que captam o presente e exorcisam o passado e os historiadores como exorcistas do presente, descrevendo o passado. De acordo com o autor, a saída de cena dos militares e a ascensão de José Sarney e seus congêneres foi o princípio do fim.

[...] as decadentes oligarquias do Nordeste/Norte comandaram durante o governo Sarney, uma devastadora razia sobre o Erário Público,[...] pelas concessões políticas feitas em troca de seu apoio. [...] esse perverso conúbio das velhas oligarquias com as novas forças gestadas [...] visava como sempre, à pilhagem do Estado (DACANAL, 2005, p. 56).

Sarney levou o país às mais altas taxas inflacionárias da história. O que seria superado  por Collor, o caçador de marajás.

De la pra cá, em sucessivas trocas de mãos, o país parece ter estagnado, com suaves avanços, quase imperceptíveis.

Gal Costa, musa do Tropicalismo, com seu show O sorriso do gato de Alice, em 1994, foi além. Resolveu apresentar Brasil, de Cazuza, com seus seios à mostra, em uma atitude provocativa e chocante.

Tão atual como nos idos de 1988 é o pedido que Cazuza lançava à época: Brasil, mostra a tua cara!

REFERÊNCIAS:


DACANAL, José Hildebrando. Brasil: do milagre à tragédia (1964 – 2004). Porto Alegre: Leitura XXI, 2005.



Ouça o disco Ideologia, de Cazuza em https://youtu.be/YcBkXBuoOw4

Veja Gal Costa mostrando a cara em https://youtu.be/u1Iz-nRNzNY


sábado, 18 de março de 2017




MUSISTORIOGRAFIA


Musistoriografia é uma proposta de junção das palavras música e historiografia, unindo, mais do que os termos que representam, a definição de cada uma delas, dando a entender como uma visão historiográfica, utilizando-se da música, e fontes musicais, na narrativa histórica.
A música no Brasil, em especial da segunda metade do século XX até hoje, tem sido de importância capital para o entendimento do contexto político-social-econômico em nosso país.
Na década de 1970, o regime militar utilizou da música para criar um sentimento de ufanismo no cidadão brasileiro. O governo difundiu essa idéia através de canções como Eu te amo, meu Brasil , de Dom e Ravel, e Este é um país que vai pra frente, do grupo Os Incríveis.
A música de protesto seria difundida pelos artista que faziam oposição ao governo militar nas décadas de 1970 e 1980, e mesmo após a redemocratização, nos malfadados governos de Sarney e Collor.
Tudo isso nos prova a importância da música na narrativa histórica brasileira.
Tudo isso é musistoriografia.